sexta-feira, julho 28, 2006

O Morto

Eu estava dormindo e me acordaram
E me encontrei, assim, num mundo estranho e louco...
E quando eu começava a compreendê-lo
Um pouco,
Já eram horas de dormir de novo!


Mario Miranda Quintana

terça-feira, julho 25, 2006

Willy Caolho & Jack - Onde tudo começa

Lá estava Willy Caolho, sentado na varanda de seu casebre. Estava descascando o fumo displicentemente, matinho no canto da boca, pernas esticadas repousando sob o parapeito de madeira da varanda. A velha camisa xadrez aberta até o peito, as marcas de suor tradicionais por debaixo das axilas e sua bota suja de barro. O dia estava preguiçoso, a lenha já fora cortada e a neblina que cobria o pântano deu lugar a uma ensolarada floresta.

Seus olhos miravam o horizonte, por de trás do vale. Estava com o pensamento longe...

- Vai ficar sentado aí o dia todo?
- Quem disse isso? – Falou Willy Caolho, num sobresalto
- Fui eu.
- Eu quem? - Willy olhando para os lados como que procurando por alguém a se revelar a qualquer momento.
- Fui eu. Seu outro eu.
- Outro eu? Que outro eu?
- A voz que ecoa em sua cabeça...
- Como meus pensamentos?
- Podemos dizer que sim, porque se disser não eu estaria negando algo que só por não ser verdade em seu todo também não é mentira.
- E qual o seu nome?
- Meu nome? Meu nome é Jack!
- Jack?!
- Isso...porque o espanto?
- Nada não...mas se você está em minha cabeça, você sou eu?
- Já falei. Eu sou seu outro eu. É como se eu fosse eu, e você fosse você, e juntos eu e você fossemos nós.

Willy estava atônito. Seus olhos arregalados, cara de surpresa. Afinal, havia uma voz saindo de sua cabeça, e que de uma forma material estava falando com ele.

- E que formato você teria Jack?
- Formato?
- Isso, você deve ter uma forma não?
- Ah sim...eu tenho a forma que você acha que eu tenho.
- Como a de um jacaré?
- Isso, um jacaré.

Willy estava estupefato. Aquela voz na sua cabeça parecia ser mais uma alucinação do que qualquer outra coisa.

- Então, vai ficar parado aí o dia todo? – repetiu Jack.
- Não sei...eu...eu – Willy, confuso.
- Ora Willy. Pare. Nem mesmo eu, que não sofro a ação do tempo já estou cansado de ficar parado aqui.
- E o que você sugere Jack?
- Algo que possa nos entreter – Fala Jack, pensando em como Willy ficaria surpreso de saber que seu próprio pensamento achava que ele pensava de menos.
- Já sei. Vamos consertar o motor da camionete! – fala num salto Willy, com um largo sorriso no rosto.
- Mas ele precisa de reparos?
- Na verdade não, mas isso é entretenimento.
- Nesse caso acho que vou ficar por aqui.
- Não há como. Se você está na minha cabeça, e se me pertence, por ser meu outro eu, terá que vir comigo.
- Ai, ai... – suspira Jack – lá vamos nós.

E Willy correu pegar sua caixa de ferramentas, desceu as escadas da varanda assoviando em direção a parte de trás de seu casebre. Estava tão feliz com a novidade que não parava de assoviar nem por um bom pedaço de carne de lebre.

Tommie S. Swamp

domingo, julho 23, 2006

O ponto final

Eram amigos até que um dia brigaram por motivos desconhecidos. Não havia maneira que os fizesse reatar a convivência. A partir desse dia tomaram rumos diferentes, caminhos que nem sabiam aonde poderiam levá-los.


Passados dois anos um volta a ter conhecimento do outro: iria se mudar do país. Havia recebido uma proposta irrecusável e não teria prazo para voltar. Estava tomando o seu caminho. A 'amizade' era passada e não o incomodava mais, exceto pelos primeiros momentos da ruptura. Mas, como o crescimento só surge em tempos de crise, cada um tomou seu caminho.


A notícia soou como uma bomba mesmo passados dois anos intensos. Como aquilo poderia acontecer? O que o levou a essa decisão? O espanto, a curiosidade, o medo e a expectativa de um possível reencontro misturaram-se com inúmeros outros sentimentos que envolviam aquela relação, tudo isso era inevitável, mesmo que de uma forma ainda desconhecida para ele.


Surge então a notícia de que o embarque aconteceria na tarde seguinte e logo veio a idéia de presenciar o fato 'in loco'. No local do embarque via-se alguns familiares e amigos, mas nada além disso. Seu amigo, por assim dizer, havia embarcado há cinco minutos. Não havia nada a fazer. O que lhe passava na cabeça era que tudo tinha acabado. E de fato acabou da forma como menos se esperava.


O viajante nunca soube dessa história. Retornou ao país quatro anos depois, em visita. Seus familiares haviam mudado de cidade e seus amigos tomaram rumos desconhecidos. Do seu velho amigo não teve mais notícias desde o dia da briga. Não haviam motivos para retornar àquela cidade, onde tudo começou e terminou.